Nas ciências sociais, filosofia e áreas afins, o termoideologia é empregado com muita freqüência. Em uma de suas canções, o músico e letrista brasileiro Cazuza fez uma crítica sagaz à ausência de uma ideologia para seguir nos tempos atuais.
O verso de Cazuza - "Ideologia. Eu quero uma pra viver" - pode ser nosso ponto de partida para perguntar: mas afinal, qual é o significado desse termo e como ele surgiu?
O conceito ideologia foi criado pelo francês Antoine Louis Claude Destutt de Tracy (1754-1836). Este filósofo o empregou pela primeira vez em seu livro "Elementos de Ideologia", de 1801. para designar o "estudo científico das idéias".
O conceito de ideologia é muitas vezes identificado como apenas o estudo das idéias, mas tal conceito é equivocado, já que tal tradução se trata de ideário e não uma forma de ocultar a realidade através dos mesmos. Para Aristóteles, é um movimento caracterizado por toda e qualquer alteração da realidade. Ela é criada de como uma forma de alienação social, caracterizada de 3 formas: social, na qual o indivíduo aceita tudo que lhe é disposto pois acredita ser parte de algo natural e imutável; alienação econômica, que é aquela em que os membros da sociedade não se reconhecem como responsáveis por aquilo que fazem, não se identificam em seus trabalhos; e alienação intelectual, a qual nos faz pensar que o trabalho manual não exige conhecimento ou intelectualidade, mas sim mecânica. Essas formas de alienação tornam a ideologia ainda mais forte, pois criam um senso comum na sociedade, de modo a justificar a realidade de maneira superficial, ou seja, visível a olho nu; enquanto que o olhar para com a sociedade deveria ser mais profundo e melhor analisado.
Podemos considerar uma generalização do homem a descrição do mundo a partir da classe social em que vivemos, mostrando que não olhamos o todo, mas nos deixamos levar pelas impressões que temos somente do corpo a que pertencemos, fazendo, assim, afirmações incorretas sobre a nossa realidade. Por não determos total conhecimento desta, o senso comum não pode ser aplicado, já que este é uma opinião de um pequeno grupo que acaba tornando-se, por imposição, padrão para o resto. Em conseqüência. Um argumento que insistimos em carregar, é que somos uma só sociedade, que somos todos iguais. Apesar de sabermos que as divisões sociais são claras, afirmamos que elas não existem e sim apenas seres humanos com os mesmos direitos, quando na realidade uma pequena parcela da população gerencia de que modo os recursos chegarão à grande maioria, aos seu “semelhantes”. Ao mesmo tempo que insistimos nesse argumento, também insistimos que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são formadas pela divisão de classes que nos é real, mas sim por destaque de alguns membros da sociedade que tem maior capacidade intelectual do que outros, ou maior força de vontade. Tal argumento parece preguiçoso, ou seja, é mais fácil afirmar que um homem é rico por astúcia e por todo seu conhecimento acumulado, do que reconhecer que toda essa inteligência e astúcia não foi usada para melhor distribuir a renda no país e sim concentrá-la. Do ponto de vista ideológico, todos nós somos cidadãos, porém se fossemos comparar nossa sociedade a sociedade da antiga Grécia dos tempos das Polis, veríamos que ela não se difere muito, já que apenas uma minoria eram considerados cidadãos. Ainda hoje, a grande maioria não possui seus direitos respeitados. Apesar de todos serem chamados cidadãos, é apenas uma minoria que de fato exerce esse título. Não é porque somos indivíduos votantes que quitamos nossos débitos, que podemos nos considerar cidadãos. Isso é o que a ideologia nos faz acreditar, porém a realidade é outra.
Para a ideologia, existe uma ordem a ser seguida, de modo que a sociedade passe a acreditar que uma situação como esta só ocorre porque a sociedade está disposta a isso, ou seja, existe uma relação de efeito e causa. As mulheres, por exemplo, só são consideradas o sexo frágil por serem mais intuitivas, maternais, doces, características que, aparentemente, as tornam mais frágeis que os homens. Essa forma de ver a sociedade atua como uma produção do imaginário social, o qual recolhe imagens imediatas da vida e as toma como realidade geral reproduzida pela ideologia. Há quem afirme que a ideologia é similar ao conceito de inconsciente de Freud. Essas comparações ocorrem devido a adoção de crenças sem saber sua origem, a ação através do imaginário refletindo na consciência. A ideologia torna-se, assim, uma forma de falsear realidade de modo imperceptível para a sociedade, já que é preferível continuar afirmando aquilo que é mais fácil ouvir, ou explicar. Por exemplo: dizer que um pobre só é pobre porque é vagabundo, por que quer ser pobre mesmo, tem preguiça. Ao invés de ouvir a essência das coisas, ao invés de tentar compreender a realidade que cerca a sociedade e parar de nos ver espelhados e explicados nos rostos alheios.

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